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segunda-feira, janeiro 12, 2004

ESTREIA DE "AVENTURAS EXTRAORDINÁRIAS DO PRÍNCIPE E DO CASTOR" 


Dias 14, 15, 16
21:30 - Teatro Académico Gil Vicente - Coimbra


- Não é por falta de histórias, de história, que esta história começa. É pelo tempo que transborda para fora dos nossos corpos...
- ou dos corpos que sobraram do nosso tempo
- das palavras que enrolaram o tempo no meu corpo...
- e por isso a tua pele na minha pele...
- diluindo-se uma na outra...
- envolvendo outros corpos...
- cegando outros olhos...
- afinal é com os nossos corpos que esta história se faz...
- com os fantasmas dos nossos corpos...
- com o que resta dos nossos corpos...
- e das nossas palavras...


Um homem que em toda a sua vida quis ser príncipe.
Uma mulher que viveu toda a sua vida como um castor.
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir em cena?
Talvez. E também umas quantas conversas «de pessoas
que lançam à cara umas das outras, coisas que têm a dizer».




Encenação | Tiago de Faria
Assistente de encenação | Fernando Silva (estágio final do curso de Estudos Teatrais da Universidade de Évora)
Direcção de texto | Carlos Alberto Machado
Concepção de texto | Ana Fernandes | Carlos Alberto Machado | Fernando Silva |Tiago
Lança | Sílvia das Fadas

Interpretação | Ana Fernandes | Fernando Silva | Luís Rodeiro | Maria Inês Coroa | Sílvia das Fadas

Desenho de Luz | Mafalda Oliveira
Banda sonora | Bruno Matias | Francisco Frazão | Hugo Gama
Cenografia | Tiago Lança
Figurinos | Ana Manaia

Concepção Gráfica | huella

Produção CITAC 2003

Agradecimento de participação na elaboração de texto | Francisco Frazão | Jorge Correia | Niama

Há algo que não se distingue de imediato num primeiro olhar sobre um qualquer texto. Existe sempre uma primeira ideia de um todo, de uma malha, que só o olhar mais demorado substitiu por pequenos nós. Aventuras extraordinárias do Príncipe e do Castor desafia o primeiro olhar, o primeiro e o segundo sexo, desafia o Outro, desafia-nos e ri baixinho nesse desafio. Entrega-nos de borla as miudezas de uma relação “(re)inventada”, e espera que o nosso olhar se distancie o suficiente do texto que (n)os une/urde/arde. Alcançar com a mão consciente, a tomada ligada á máquina que nos liga a vós/eles, é o nosso objectivo. Queremos nos desligar destes mundos, mas não conseguimos, não conseguimos abandonar ideias feitas, não conseguimos não ser banais na relação, não conseguimos nos comprometer para além do nosso real, e queremos por tudo que nos desliguem, antes que a nossa contradição nos faça querer ver para além desta nossa cegueira.
Tudo isto nos incomoda, nas tentativas de relação com os senhores em questão, e com o seu universo, e com o texto que nos foi emprestado. Jogamos à lei do acaso, num processo emprestado de outras danças. Criamos um concerto, polifónico de vozes à partida dissonantes, colecionamos imagens na tentativa de alcançar o estereograma inicial. Foi destas tentativas de jogo e criação que fomos sobrevivendo, à lei da bala marxista. É de corpos que esta história se faz, de corpos e dos seus encontros, num esforço quase continuado, mendigado.

Somos um bocado mendigos na nossa forma encontrada para aqui e agora irmos descobrindo este espectáculo. Somos um bocado mendigos e colecionadores, sempre pobres a olhar o vazio enigmático de uma sala de ensaios, já cheia de outras utilizações. Somos mendigos de ideias, vivemos da caridade do senhor Sartre, e da senhora Beauvoir, do seu universo, e de outros paralelos. Colecionamos momentos para mais tarde esquecer, outros para mais tarde urdir/arder num só.
Hoje, parece-nos bem partilhar alguns desses momentos que fomos colecionando, para talvez vir a mendigar uma palavra vossa. Grandes momentos fazem-se de pequenos acontecimentos, já alguém disse isto mas confesso-me vesgo de memória.

Convém destapar o papel do assistente, que tentamos reequacionar no aproximar de cada nova fase. Veio dele a ponte entre as escritas, e corpo dos corpos dos actores. Nele se reflectem persistência e paciência de nos esforçarmos profissionais, desprendimento e ousadia de nos querermos experimentar.
Tiago de Faria



Uma invenção do mundo
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir usaram a literatura como forma de reinvenção do mundo e das suas próprias vidas. Quando me propuseram “escrever a várias mãos um texto para teatro a partir do universo de Sartre e de Beauvoir”, pensei, antes de mais, num processo de reinvenção. Como? Convidando para as salas do CITAC e do TAGV, para as ruas, cantinas e bares de Coimbra os mundos pessoais do “príncipe” Sartre e da Simone-“Castor”. Com as palavras escritas e ditas e com os corpos por onde tudo passa, onde tudo se diz, inventámos seres com quem falámos, com quem rimos, com quem nos aborrecemos e também, por vezes, com quem nos desentendemos. Chegámos a um texto onde pulsam seres vivos – disso estou seguro. Verdadeiros? Mentirosos? Não sei. Ou talvez possa dizer, parafraseando a “Castor”, que o teatro, no fim de contas, não passa de “hábeis mentiras que secretamente dizem a verdade”. Aqui e em lado nenhum.
Carlos Alberto Machado



Sobre o Evento

Este evento é “ fruto de vontades individuais nascidas de descrenças colectivas”. Foi um processo de amor e desamor comigo própria, com todos aqueles que construíram este evento e, sobretudo, com o Sartre e a Beauvoir que me habitavam e que, inevitavelmente, se transformaram.
Sonhei-os por toda a cidade de uma forma que não esta, mas escritos nas paredes, a entrar por todos os cafés e jardins e espaços outros que dia-a-dia livremente partilhamos. Porque o essencial é compreender os homens, sabê-los únicos e irrepetíveis. Foi pela escrita da Simone e do Sartre que esta evidência me apareceu, assim como a necessidade eminente de saber o porquê das coisas, delas não bastarem por si próprias mas pelo sentido oculto que encerram. De alguma forma isto fez sentido para outros citaquianos e foi assim que nos lançámos, “seta despedida sem retorno”, no universo partilhado de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir.
Apresentou-se-nos como um desafio interessante partir da abundante correspondência que se estabeleceu entre eles e nas obras e memórias que ambos deixaram para construirmos um texto que reconhecessemos como nosso. Foram tardes e noites sustentadas pelo CAM em torno de uma mesa, a lutarmos com o desejo de tudo escrever e a frustração de ficarmos sempre aquém do desejado. No fim, descobrimos em papel impresso um Sartre e uma Simone reinventados, feitos Príncipe e Castor a pedirem um palco que os trouxesse à vida. Aí entrou o Tiago e novamente nós a deitar por terra as certezas que julgávamos absolutas, a atirarmo-nos contra as paredes do teatro-estúdio e a renascer borboletas com o amor e a morte de mãos dadas nos nossos corpos.
As outras peças do evento surgem como um fio mais frágil, mas talvez mais verdadeiro. Desenhámos exposições, uma mostra de livros e documentários e um ciclo de conversas a recuperar a ideia de café como espaço privilegiado de debate. Queremos pessoas, vontades e ideias por onde circulem as palavras justas para os dizer, para os construir e desconstruir se for caso disso, de forma mais académica ou marginal. Queremos uma semana de surpresas com estes companheiros de uma vida inteira, intelectuais, artistas resistentes e comprometidos com o mundo e com os outros. Que aqui perspasse tudo isto e ainda a inquietude e a liberdade em nós.
Sílvia das Fadas


PROGRAMA
Teatro Académico Gil Vicente - COIMBRA

Dia 12

09:30 - Abertura das exposições
17:30 - Abertura Oficial do Evento (Depoimentos dos citaquianos envolvidos no evento sartre e Beauvoir)
18:00 - Conversas sobre Sartre e Beauvoir com Tito Cardoso e Cunha, Pedro Calheiros, e Cecília Monteiro
22:00 Projecção do documentário “On a raison de se révolter”

Dia 13

09:30
- Abertura das exposições
18:00 - Projecção do documentário “Sartre par lui même”, 1.ª parte
22:00 - Concerto – apresentação da banda sonora do espectáculo “Aventuras Extraordinárias do Príncipe e do Castor”

Dia 14

09:30 - Abertura das exposições
18:00 - Conversas em torno de Simone de Beauvoir, com Zília Osório de Castro, Maria João Frazão
21:30 - Estreia do espectáculo “Aventuras Extraordinárias do Príncipe e do Castor”

Dia 15

09:30 - Abertura das exposições
18:00 - Projecção do documentário “Sartre par lui même - 2.ª parte”
21:30 - Aventuras Extraordinárias do Príncipe e do Castor

Dia 16

09:30 - Abertura das exposições
18:00 - Conversas sobre Sartre: António Pedro Pita (Sartre o Intelectual e a Situação), José Oliveira Barata (Sartre e o Teatro)
21:30 - Aventuras Extraordinárias do Príncipe e do Castor




terça-feira, dezembro 09, 2003

O nome... finalmente... 

AVENTURAS EXTRAORDINÁRIAS DO PRÍNCIPE E DO CASTOR

Pois, foi este o nome democraticamente escolhido para o espectáculo teatral do Evento Sartre-Beauvoir do CITAC. Em Janeiro de... 2004... estreia...

Mais do nunca, esperamos críticas... etc...



terça-feira, dezembro 02, 2003

3ª versão do texto 


EVENTO SARTRE / BEAUVOIR

Aqui e em lado nenhum (título provisório)

[ 40.816 caracteres, incluindo espaços, em 2.12. 2003 ]


CENA 1

Quarto de Sartre.

Sartre: Outra vez não, por favor. Faça de conta que já morri.
Simone: Só mais um esforço...
Sartre: Você sabe, já lhe contei, que quando eu era pequeno, na idade em que escrevia os meus primeiros romances, por volta dos 8 anos, o meu avô chamava-me príncipe: é isso que eu quero voltar a ser, um príncipe superior, a quem ninguém pode impor nada. Pode ser? Não mais conversas gravadas, não mais entrevistas... pode ser?...
Simone: Vai desistir?
Sartre: Não, apenas um pequeno silêncio de vez em quando, antes do maior e definitivo.
Simone: Está bem, por agora...
Sartre: Obrigado, meu lindo Castor!

CENA 2

À porta da casa de Sartre

Simone: Não imaginava que ao fechar a porta do apartamento ela nunca mais se abriria à minha frente com a vida dele lá dentro. Tenho medo.


CENA 3

Lugar nenhum.

Simone: Você estava calmo, como todos os mortos, e como a maior parte deles inexpressivo. Normalmente, quando eu entrava no seu quarto (todo iluminado) você ainda dormitava.
Sartre: Beijava-me?
Simone: Não. Talvez você tenha sonhado com isso. Você acordava e murmurava algumas palavras sem abrir os olhos.
Sartre: Nunca deixei de a amar. Muito.
Simone: Depois adormecia. (pausa) E às vezes eu deitava-me por cima do seu lençol e tentava dormir um pouco.
Sartre: E conseguia?
Simone: Você estava frágil, muito frágil. Não conseguia.
Sartre: Sempre me preocupou o facto de não adormecermos ao mesmo tempo.
Simone: No fim, levantei-me e observei-o de longe. Igual a si próprio. Ainda inteiro. Desejei-o numa pequena morte só no dia seguinte. (pausa) Depois, resolvi abrir as janelas. Não havia outra solução senão deixá-lo morrer em paz.


CENA 4

Quarto de hotel.

Mulher A: É preciso fechar os olhos e esquecer esta máscara da morte. Esquecer esta máscara da morte. Esta máscara. É preciso fechar os olhos.
Mulher B: Vem, despe-te. Toma o teu tempo.
Mulher A: É preciso fechar os olhos.
Mulher B: Vá, toca-me. Este é um corpo como outro qualquer. É mole. É carne.
Mulher A: É preciso fechar os olhos.
Mulher B: Posso nomeá-lo enquanto me tocas. Estende a tua mão.
Mulher A: É preciso fechar os olhos esquecer.
Mulher B: Olhos, nariz, lóbulos, lábios, pescoço, seios, braços, mãos, barriga, púbis, coxas, nádegas, joelhos, pernas, pés.
Mulher A: Esta máscara da morte. Qual é o teu signo?
Mulher B: Caranguejo.
Mulher A: Amanhã já não serei capaz, já só verei a máscara.

CENA 5

Lugar nenhum.

Sartre: É verdade, eu não sou autêntico. Tudo o que sinto, antes mesmo de o sentir já sei que o sinto. E nessa altura só o sinto parcialmente, todo ocupado a defini-lo e a pensá-lo. As minhas maiores paixões não passam de nervosismos. No resto do tempo, sinto apressadamente e depois desenvolvo por palavras, insisto um pouco aqui, forço um bocado ali, e eis que surge uma sensação exemplar, digna de figurar num livro encadernado. Tudo o que os homens sentem, eu posso adivinhá-lo, explicá-lo, pô-lo preto no branco. Mas não senti-lo. Eu dou a ilusão, pareço um tipo sensível e sou um deserto. Contudo, quando analiso o meu destino, ele não me parece tão desprezível: parece-me que tenho à minha frente uma quantidade de terras prometidas onde não entrarei. Não senti a Náusea, não sou autêntico, estou parado no limiar das terras prometidas. Mas pelo menos aponto-as e outros poderão lá chegar. Sou um denunciante, é esse o meu papel. Parece-me que neste momento consigo apreender a minha estrutura mais essencial, essa espécie de amargura desolada de me ver sentir, de me ver sofrer, não para me conhecer a mim próprio, mas para conhecer todas as “naturezas”, o sofrimento, o prazer, o ser-no-mundo. É bem eu, esta repetição contínua e reflexiva, esta precipitação ávida de tirar partido de mim mesmo, esta inquietação. Sei isso muito bem, e por vezes farto-me de ser assim. É daí que vem essa atracção mágica que sobre mim exercem as mulheres obscuras e angustiadas. E de resto, de vez em quando, tenho prazeres inocentes de alma pura, mas que são imediatamente reconhecidos, despistados, exprimidos, divulgados. Sou todo orgulho e lucidez.

CENA 6

Lugar nenhum.

Simone: Sou uma mulher. Não sou um pólo negativo. Tenho duas costelas como os homens. Tenho qualidades. Eu não sou Outra. Eu existo sem o homem como o homem sem a mulher. Eu sou única, concreta. Todas as mulheres o são. Posso ter uma frieza de vidro. Esboçar apenas um sorriso seguro com uma promessa de denúncia nos lábios. Fui colonizada no interior, pelo interior. Todas as mulheres o foram, o são. Este mundo sem Deus em que vivo, com que cores me aparece? A preto e branco. O véu levantado, assim evito pensar. Porque recuso as fugas e as mentiras que me acusam, não fecho as mulheres num gueto feminino. Não nasci mulher, tornei-me uma. Dura. Mulher. Forte.
Estar morta: ninguém está nunca morto, ninguém é nunca morto. Eu estou viva. O Nada dá-me vertigens. Somos imortais. Estarei sempre viva. Viva e frágil.


CENA 7

Lugar nenhum.

Simone: Quem procuramos nas outras pessoas, nos corpos por onde passamos – e onde acabamos sempre por deixar tanto de nós mesmos?
Sartre: A primeira vez somos escolhidos – depois é a nossa vez de escolher. É uma procura sem fim. É preciso crescer, devorar corpos e almas.
Simone: Não precisamos de ser carniceiros.
Sartre: Somos, somos carniceiros, uns carniceiros especiais com um pouco de ética.


CENA 8

Quarto de hotel.

Sartre: A criada ficou espantada. Ainda ontem aqui, neste mesmo quarto, desflorei outra rapariga.
(silêncio.)

Bianca: Posso correr as cortinas?
Sartre: Não sejas parva. O que tem de ser feito deve ser feito em plena luz.

(Sartre despe-se e fica em cuecas. No lavatório, lava os pés. Põe pó de talco nas pernas. Bianca despe-se atrás de uma cortina. Fica apenas com um colar de pérolas ao pescoço.)

Sartre: Já está?
Bianca: Sim. (silêncio) Sabes que é a minha primeira vez?
Sartre: Se não fosse achas que estava aqui contigo?
Bianca: Não?
Sartre: Para que são essas pérolas? Obrigação do papá rico para a primeira vez?
Bianca: Eu…
Sartre: É para te dar sorte? Estás pronta ou não?
Bianca: Sim…
Sartre: Vamos lá a isso!...

(Deitam-se. Sartre resfolega. Bianca chora baixinho.)

Bianca: Desculpa, desculpa…não consigo…
Sartre: Estiveste com a Simone para quê? Ela não te ensinou nada? Miúda parva!

CENA 9

Quarto de Sartre.

Simone: Chegue-se cá, meu amor.
Sartre: Sinto-me sujo.
Simone: Limpe-se. Fale.
Sartre: Palavras. Sempre palavras. Às vezes o mundo não se deixa vergar à inteligência das minhas palavras. O corpo de Bianca fechou-se e eu falei inutilmente.
Simone: Ela é uma criança ainda. Foi isso que o assustou?
Sartre: Não sei…a sua nudez…tantos cheiros…e eu sabia que ia haver sangue…Arranja-me um whisky? Não gostava de ser casta? Eu desejo isso, ou melhor, libertar-me do lado repugnante do amor, quando se perde a cabeça e já não se sabe o que se faz. Uma palavra pode dominar-se, um corpo não. É isso que me atemoriza.
Simone: Mas foi ela que teve medo.
Sartre: Talvez. E talvez a castidade seja coisa apenas de mulheres.
Simone: E você um violador. Será sempre um violador de mulheres.
Sartre: Talvez. Que outra coisa posso eu fazer?
Simone: Saia agora, por favor. Bianca não tarda aí.


CENA 10

Quarto de Simone.

Simone: Não fiques assim.
Bianca: Pensei que o amor era outra coisa. Apenas conhecia a tua ternura. O meu corpo apenas conhecia o teu.
Simone: Talvez os homens não sejam iguais às mulheres.
Bianca: Eu quis abrir-me a ele, juro! Pensei em ti enquanto ele empurrava, empurrava…mas o meu sexo estava seco e eu…Aquilo não era amor, parecia que me queria destruir. Estava tenso, obstinado…Acho que foi ele que não conseguiu libertar-se, deixar o seu corpo abandonar-se ao meu... O amor de um homem não pode ser assim…não sei…beija-me meu amor!


CENA 11

Quarto de hospital.

Sartre: Olá Morte! Queres brincar comigo à filosofia? Sim? Então diz-me: tu és o quê? Um fim que é Nada? Uma coisa substancialmente concreta, um Possível? Apanho-te, Morte, sim, mesmo que um destes dias sejas tu a apanhar-me. Ou engano-te e digo-te: Eis-me morto!


CENA 12

Quarto de Sartre.

Sartre: Desejava dar-lhe todos os beijos que não lhe dei para que nos prendessem um ao outro.
Simone: Abrace-me, não me aperte a mão com tanta indiferença. Estou cansada. Apetece-me chorar. Não posso ficar em silêncio.
Sartre: Eu não posso apagar-me. Deixar de ser o que sou.
Simone: Então minta-me.
Sartre: Não lhe incomoda que minta?
Simone: Não. É a única forma de nos defendermos. Não se pode ser tranquilamente o que se é sem torturar alguém.


CENA 13

Quarto de Sartre.

Sartre: Ainda era capaz de voltar a escrever: «A penetração é sempre uma violação.»?
Simone: Não. Talvez escrevesse: «Não aceito a ideia de que todos os coitos são violações.»
Sartre: Às vezes sou um violador de mulheres, de outras não; talvez possa chamar-me masturbador de mulheres.
Simone: É essa a alternativa?
Sartre: Para mim é.
Simone: Há – ou pode haver – uma reciprocidade livremente consentida. Nesses casos, assimilar a união a uma violação é assumir os mitos masculinos que fazem desse vosso pedaço de carne mole, o vosso membro viril, uma relha de arado, uma espada, uma arma dominadora.
Sartre: Você é um Castor muito cruel.

CENA 14

Quarto de Simone.

Simone: Mais uma carta anónima. De um homem. Chama-me frígida.
Sylvie: Não ligue.
Simone: Diz que me quer curar…
Sylvie: Estúpido! Quando é que isto acabará?
Simone: Sei lá! Já me chamaram tudo: insatisfeita, fria, lésbica, ninfomaníaca... Acusaram-me cem vezes de ter abortado. Fui até mãe clandestina, sabia? Não vão desistir tão depressa.
Sylvie: Belos herdeiros do papá Freud, tão ignorantes das mulheres como ele.
Simone: Estes idiotas defensores do bem, do belo, da verdade e da saúde que eu tanto perturbei. (silêncio) Sylvie?
Sylvie: Sim?
Simone: Acha-me indecente?

CENA 15

Quarto de Sartre.

Simone: É bonita, esta mulher.
Sartre: É, eu sei.
Simone: Mais alguma coisa ?
Sartre: Sei tanto como você.
Simone: Talvez, mas sabemos de maneira diferente.
Sartre: Posso perguntar-lhe, se quiser.
Simone: É inútil. Estas mulheres nunca saberão falar por nós.
Sartre: Fica sempre qualquer coisa por dizer.
Simone: Não, fica sempre qualquer coisa por fazer.
Sartre: O quê?
Simone: O seu abandono.
Sartre: A sua possessão.
Simone: É preciso falar sempre tanto?
Sartre: É. Porque fica quase sempre tudo por dizer.
Simone: Por fazer.
Sartre: Qual é a diferença?


CENA 16

Quarto de Sartre.

Mulher: Vire-se, não quero que me veja ainda.
Sartre: Não se incomode. Não lhe faço mal.
Mulher: Pensei muito, antes de entregar-me.
Sartre: Não pense. Entregamos o nosso corpo a toda a gente: pelo olhar, pelo tocar. Entrega-me o seu corpo, eu entrego-lhe o meu: existimos cada um para o outro como corpos. Apenas.
Mulher: Não sei como estar à sua frente apenas como corpo. Sem uma palavra. Não sei porque vim. Um corpo. E outro corpo. Erguidos na terra. Cada um como obstáculo para o outro. Sem uma palavra para os unir.
Sartre: Aproxime os seus lábios dos meus. Não tenha medo. As palavras são desenhadas por uma língua numa boca.


CENA 17

Quarto de Simone.

Sylvie: Deixe-me ler o seu discurso, vá lá!
Simone: Deixe-se de brincadeiras...
Sylvie: «Nós, as mulheres!...»
Simone: Não é nesse tom, por amor de Deus!
Sylvie: Então assim: «Nós, as mulheres, não temos à partida a luta ganha. A revolução...»
Simone: Ouça, assim: «A revolução social não bastará para resolver os nossos problemas, os problemas de mais de metade da humanidade...»
Sylvie: «... Espanta-me que a exploração da mulher seja tão facilmente aceite...»
Simone: Não pode ser tão melodramática! Bom, afinal quem tem que ler o discurso sou eu. Vou continuar, só para saber a sua opinião: «Talvez um dia a posteridade se interrogue como puderam as democracias burguesas ou populares manter sem escrúpulos uma tão radical desigualdade entre os dois sexos.»
Sylvie: É bonito.
Simone: Não se trata de beleza... E acaba assim: «Outrora pensava que a luta de classes devia passar à frente da luta dos sexos. Hoje acho que se devem fazer as duas juntas.»


CENA 18

Um quarto.

Mulher: Está tão... tenso. Afinal, porque veio?
Sartre: Não sei. Talvez mais uma aventura. Talvez para libertar-me do que me afoga por dentro. Não sei.
Mulher: Todos os escritores são assim, com tantas dúvidas?
Sartre: Sinto-me envelhecer.
Mulher: Se me observar com atenção verá como envelheço à sua frente. Não ligue, estou a brincar!
Sartre: Posso tocar-lhe? Cheirá-la? Trincar-lhe os lábios?
Mulher: É preciso pedir?
Sartre: Não. Não consigo. Este corpo de homem só tem demasiadas recordações a trespassá-lo.
Mulher: Não está só. Feche os olhos.
Sartre: Não posso. Tenho medo de me arrepender. Mergulhar demasiado fundo. Faltar-me o ar.
Mulher: Feche os olhos. Eu sou mãe, a mãe de todas as mulheres.


CENA 19

Quarto de Simone.

Simone: Conheci Djamila. Uma argelina, agente de ligação da Frente de Libertação Nacional da Argélia. Tinha 23 anos quando foi selvaticamente agredida, em casa de seus pais, por guardas e inspectores da polícia. Levada para a prisão foi de novo espancada e pisada. Após 4 dias, sofreu a tortura pela electricidade: queimaram-lhe os seios, as pernas, o ânus, o sexo e o rosto. Estas torturas alternavam com queimaduras de cigarros, socos e o suplício da banheira que consistia em deixarem-na pendurada de um pau por cima de uma tina e obrigarem-na a engolir água até asfixiar. Depois de tudo isto, foi submetida ao suplício da garrafa. É o mais atroz dos sofrimentos: depois de a terem prendido numa posição especial, enfiaram-lhe na vagina o gargalo de uma garrafa. Tratou-se de uma dupla violação: ao perder assim a sua virgindade, Djamila perdeu igualmente a sua futura condição de esposa. O Governo da nação teima em manter os olhos fechados perante a violação dos mais elementares direitos na Argélia. Quando os dirigentes de um país aceitam que se cometam crimes em seu nome, todos os cidadãos pertencem a uma nação criminosa: consentiremos todos em aceitar semelhante posição?


CENA 20

Praça pública.

Sartre: Testemunho na rua porque sou um intelectual e porque penso que a ligação do povo e dos intelectuais que existia no século XIX deve hoje voltar a existir. Há 50 anos que o povo e os intelectuais estão separados, é preciso que de novo sejam um só. Em França há duas justiças: uma, burocrática, que serve para amarrar o proletariado à sua condição, a outra, selvagem, que é o momento profundo pelo qual o proletariado e a plebe afirmam a sua liberdade contra a proletarização... A fonte de toda a justiça é o povo... Escolhi a justiça popular como a mais profunda e a única verdadeira. Se um intelectual escolhe o povo, deve saber que o tempo de assinaturas de manifestos, de tranquilos comícios de protesto ou de artigos publicados por jornais reformistas já acabou. O seu dever não é tanto falar mas sim tentar, pelos meios que estão à sua disposição, dar a palavra ao povo.


CENA 21

Quarto de Sartre.

Simone: É um preconceito.
Sartre: Seja.
Simone: Tente perceber.
Sartre: Não sou mulher. Não posso perceber. Posso apenas aceitar o que me diz, como é? pois, assim: «É um preconceito supor que uma mulher que escolhe o prazer do clítoris – na homossexualidade ou no onanismo – é menos equilibrada que outra.»
Simone: Custou-lhe muito?
Sartre: Não, nada.
Simone: «A relação sexual não é entre dois aparelhos genitais, nem mesmo entre dois corpos, mas entre duas pessoas, e o orgasmo é por excelência um fenómeno psicossomático.» Percebe?
Sartre: Castor, você não percebe que “perceber” para um homem, nestes assuntos, não é realmente perceber? É preciso viver as situações com o corpo – e a nós falta-nos pelo menos metade dele para verdadeiramente perceber. Percebe?
Simone: Estamos entendidos.


CENA 22

Quarto de hospital.

Simone: Dê-me um epitáfio.
Sartre: Sempre que a polícia de Estado disparou sobre um jovem militante, eu estive do lado do jovem militante. (pausa.) Não, risque, risque. Nenhuma vida pode ser resumida a um slogan.


CENA 23

Quarto de Sartre.

Sartre: Um dia de Maio de 68 falei aos estuantes na Sorbonne. Discutiam um ponto preciso: fariam ou não uma manifestação no dia seguinte? Isso não me dizia respeito e eu só podia falar num plano geral; também me tinham posto um papel sobre a mesa: «Sê breve, Sartre.» Isso queria dizer que eles não estavam especialmente interessados em ouvir o que eu tinha a dizer-lhes, que de facto eu não tinha nada a dizer-lhes, já não sendo estudante há muito tempo e não sendo professor; eu não podia falar a título nenhum. Mesmo assim falei um pouco, fui bastante aplaudido quando subi à tribuna, menos quando desci, porque não era aquilo que esperavam. Esperavam pessoas que diziam: «É preciso fazer uma manifestação por esta ou por aquela razão, é preciso fazê-la nesta ou naquela condição, etc.» Mas, para além dos aspectos pessoais, penso que o Maio de 68 foi uma altura em os operários tomaram consciência da liberdade para a perderem em seguida. Mas esse momento foi importante e belo, irreal e verdadeiro. Era uma acção pela qual os técnicos, os operários, as forças vivas tomaram consciência que uma liberdade colectiva não era o mesmo que a combinação de todas as liberdades individuais.


CENA 24

Quarto de Nelson em Chicago.

Simone: Je suis tombée amoureuse de vous, mon doux homme-crocodile!
Nelson : What?!


CENA 25

Quarto de Sartre.

Mulher: Espere! Tenha calma! Espere! Ainda não! Merda, merda! Sacana!


CENA 26

Quarto de hospital.

Sartre: Cada homem traz a morte em si. Como o fruto o seu caroço.



CENA 27

Quarto de Simone.

Simone: Nelson, meu amor: não te admires se na tua companhia eu tiver sempre um ar risonho, tão diferente da minha maneira de ver o mundo. Tu és bem mais amável que o mundo – e o mundo não vai lá muito bem, não te parece? Na verdade, tomo certas coisas muito a sério, demasiado a sério: o amor, por exemplo, o ódio, a morte, alguns bons livros, algumas belas pinturas, a vilania de certos homens, a generosidade de outros, o mal que se faz às pessoas. Meu amor, acompanho com um pequeno copo de whisky a escrita desta carta, o que resta da nossa garrafa – e isso aperta-me o coração: lembro-me nitidamente da loja onde a comprámos os dois. Lembro-me nitidamente de tantas coisas: a pequena galeria onde a noite caiu enquanto falávamos da lepra, o encontro religioso onde o teu coração duro se derreteu e onde senti a felicidade, o regresso na noite na tua Chicago triste. Tudo era precioso, até o estar simplesmente no teu quarto a ler, contigo ao meu lado. Sim, tenho muita sorte, meu amor, muita sorte por ter dado e recebido tanto amor. Agora, é desolador ter apenas umas palavras num papel para te dizer: Nelson, meu Nelson, amo-te.



CENA 28

Quarto de Simone.

Sartre: Em tempos, tive uma mulher lunar.
Simone: Distante? Etérea?
Sartre: Não. Demasiado real.


CENA 29

Quarto de Sartre.

Mulher: Acha-me bonita?
Sartre: Acho. Acho-a muito bonita. Sabe que me faz lembrar vagamente alguém?
Mulher: Quem?
Sartre: Não lhe vou dizer!...
Mulher: Faço-lhe lembrar a primeira mulher com quem fez amor?
Sartre: Quase... faz-me lembrar a minha mãe.


CENA 30

Quarto de Sartre.

Sartre: A primeira mulher com quem estive era parecida consigo
Mulher: Ah sim? Como era ela?
Sartre: Mais velha.
Mulher: Muito mais velha?
Sartre: Tinha mais 12 anos que eu.
Mulher: Era bonita?
Sartre: Era como você.
Mulher: Bonita?
Sartre: Importa-se de correr as cortinas?
Mulher: De modo algum, se prefere assim...
Sartre: A luz forte fere-me os olhos.


CENA 31

Quarto de Sartre.

Mulher: Foi como imaginou?
Sartre: A imaginação é demasiado poderosa.
Mulher: Gostou ou não?
Sartre: Mais poderosa que os corpos.
Mulher: Vá-se lixar!


CENA 32

Lugar nenhum.

Simone: O que o atrai nelas?
Sartre: Qualquer coisa. E você?
Simone: Tudo.


CENA 33

Quarto de Sartre.

Simone: Posso ler-lhe uma coisa? Preciso da sua opinião.
Sartre: Claro, leia.
Simone: “A dualidade dos sexos, como toda a dualidade, traduz-se num conflito e, se um dos dois conseguir impor a sua superioridade, esta deve ser absoluta. Mas como é que o homem ganhou ao princípio? De onde vem que este mundo tenha sempre pertencido aos homens…”
Sartre: Tenha calma, estou a perder-me.
Simone: Faça um esforço, tente acompanhar-me.


CENA 34

Passeio no campo.

Sartre: Faço tudo passar por mim. Fabrico ilusões.
Simone: Tudo aqui é autêntico. A natureza não mente.
Sartre: Todas as naturezas conheço-as eu: o sofrimento, o prazer, o ser-no-mundo. E experimento uma espécie de amargura em sentir tudo.
Simone: Algo maior que nós.
Sartre: Uma asa bate-me furiosa nas costas, fica tudo vermelho, depois sangue.
Simone: As cores do mundo estão todas aqui.
Sartre: A asa do seu corpo não me cabe. Eu existo só, ainda que por vezes haja o momento de ilusão, eu existo só. E mais: vejo-me existir.
Simone: Venha. Venha.
Sartre: Estou cansado. Quero que tudo fique como está. Um beijo, tome, venha apanhá-lo, venha!
Simone: Silêncio. Silêncio.
Sartre: Fale, fale! Não ouve a minha consciência?
Simone: Ouço. Mas prefiro não enlouquecer.


CENA 35

Quarto de hospital.

Simone: Quais são os erros que pensa ter cometido?
Sartre: Isto faz parte da confissão? A maldita está a chegar?
Simone: Quais...
Sartre: Pois... Eu digo-lhe: não me ter empenhado violentamente, verdadeiramente, ao lado de certas pessoas, quando tinha idade para o fazer.
Simone: Quer dizer antes da guerra?
Sartre: Antes e depois.


CENA 36

Quarto de Simone.

Sartre: Fiz amor com ela, toda a manhã.
Simone: E gostou?
Sartre: Não era bonita, talvez interessante.
Simone: Interessante como?
Sartre: Queria dominar-me.
Simone: E isso excitou-o...
Sartre: No início sim, um pouco, mas depois irritou-me a ideia. Por isso, nunca lhe dei prazer.
Simone: Tem a certeza?


CENA 37

Quarto de hospital.

Sartre: Por que é que está vestida de negro?
Simone: Porque luto.
Sartre: Luta contra quem?
Simone: Luto. Por si.


CENA 38

Um terraço em Roma.

Simone: Roma pode ser o nosso mundo, não apenas a nossa cidade adoptiva, mas o nosso mundo, só nosso. Aqui somos verdadeiramente livres.
Sartre: É a velhice que a faz falar assim. Não podemos ser livres...
Simone: Não coloque o mundo entre nós, por favor! Quantas vezes aqui fizemos o mundo e nós livres nele?
Sartre: O nosso pequeno mundo burguês.
Simone: Somos burgueses.
Sartre: Mas não somos ignorantes.
Simone: Uma vida inteira a lutar pela liberdade pode dar-nos o pequeno privilégio de a sentir – mesmo que seja uma ilusão. Uma quimera.
Sartre: Porquê tudo isto agora?
Simone: A luz de Roma neste verão parece inumana, a luz de um mundo apenas imaginado.
Sartre: Sinto apenas o seu calor nas minhas mãos.
Simone: Fomos sempre livres. E esta pode ser a nossa pátria livre.
Sartre: Vou sonhar com isso.







CENA 39

Um terraço em Roma.

Sartre: Veja, veja a lua!
Simone: A lua é entediante, vê-se todos os dias.
Sartre: A lua é bonita.
Simone: É redonda.
Sartre: É o sol da noite. Em criança tinha muitas vezes medo e a lua sossegava-me. Ia para o jardim, via a lua sobre a minha cabeça e ficava feliz. Inventava histórias. Punha tudo o que queria dentro da lua. Todos os meus segredos.
Simone: Fala no passado. Perdeu a lua ou foi a lua que o perdeu. Ou ficou maior que ela.
Sartre: Os homens que pisaram o chão da lua fizeram dela apenas um enorme pedaço de rocha.
Simone: Mesmo depois disso eu sonhei viajar até lá. Nem sei porquê. Todos sonhavam e eu também sonhei.
Sartre: Eu nunca tive esse sonho.
Simone: Porque foi dono da lua.
Sartre: Talvez.
Simone: Gostava de lá ter estado consigo, quando a lua ainda era lua. Mas você teria medo.
Sartre: Talvez.


CENA 40

Um café.

Homem: Desculpe incomodá-lo outra vez.
Sartre: Não tem importância.
Homem: Gostaria muito que pudesse ler o meu último manuscrito. Tenho a certeza que é melhor do que o da última vez.
Sartre: Com certeza. Traga-mo para que o leia.
Homem: Tenho-o comigo.
Sartre: Pois bem, volte amanhã e conversaremos.

(Homem sai.)

Sartre: Só se pode querer escrever para escrever coisas perfeitas. Naturalmente, não se consegue tudo, mas é preciso querer tudo.


CENA 41

Quarto de Sartre.

Sartre: Raro! Que raridade! O meu Castor chora! Não é nada com a sua mãe, pois não? (silêncio de Simone). Pois, só podem ser más notícias do lado de lá do Atlântico. O seu Nelson, claro. Aposto que a trocou por uma qualquer boneca loura de Hollywood. Não chore, meu castor, vai ver que ele volta para os seus braços, tenho um pressentimento que o seu amor transatlântico ainda vai durar mais uma dezena de anos. Um Castor não chora, recomponha-se.


CENA 42

Um café.

Sartre: Está a saber-me mal este whisky.
Simone: Peça outro.
Sartre: Não vale a pena.
Simone Mas porquê? Se não lhe sabe bem...
Sartre: Bem sabe que isso me incomodaria mais do que beber este.
Simone: Por vezes não o entendo. Parece que a ideia de ajuda lhe é de completamente insuportável.
Sartre: Não há nada de extraordinário nisto, simplesmente não me agrada este tipo de contactos. Imagine que o empregado me trazia outro igual e eu me sentia obrigado a reclamar de novo. Iria parecer-lhe uma pessoa hostil.
Simone Faz-me lembrar, sabe quem? O Sr Plume: perpetuamente incomodado.
Sartre: É uma espécie de retraimento. Talvez um resto do meu velho ódio à humanidade.


CENA 43

Um café.

Simone: De um buraco negro nunca mais se pode sair. Um universo paralelo. Num desses buracos talvez existam um Sartre e uma Simone à nossa imagem e semelhança.
Sartre: Não sei. Imagino apenas um som contínuo, aterrador.
Simone: Como uma vida toda a acontecer num instante?


CENA 44

Quarto de Sartre.

Sartre: Por que é que responde a quase todas as cartas que recebe?
Simone: Porque acredito nelas.
Sartre: E nos seus livros, acredita?
Simone: Há várias maneiras de falar às pessoas.
Sartre: E o mundo dessas pessoas?
Simone: É preciso amá-las primeiro.


CENA 45

Quarto de Sartre.

Simone: Alguma vez aceitaria um prémio literário?
Sartre: Sabe bem que não.
Simone: Porque um prémio é um fim?
Sartre: Não, porque ainda procuro a essência da arte de escrever.
Simone: E se a atingir, então já merece um prémio?
Sartre: Não. Quando se atinge a essência não se atinge nem mais nem menos que o vizinho. Aqui não há vencedores.


CENA 46

Quarto de Sartre.

Simone: Dormiu bem?
Sartre: Estive a pensar até quebrar ossos na cabeça.
Simone: Deva descansar.
Sartre: Pensei muito durante uma viagem de bicicleta. Encostei-me a uma árvore, sentei-me naquele nosso café do boulevard Raspail... bem, você estava muito atrás.
Simone: Isso foi logo a seguir à guerra. Sonhou. Venha, é preciso vestir-se.

(Simone ajuda Sartre a levantar-se da cama até sentá-lo numa cadeira.)

Sartre: Decidi a minha vida aos 8 anos, a minha idade da razão.
Simone: E que idade tem agora? Está todo mijado.
Sartre: Tem de se ser modesto quando se é velho, não me queixo se a pouco e pouco os músculos desfalecerem. O corpo a esvaziar-se, o sangue em visita para outras artérias. A dar lugar à morte escondida dentro de mim.
Simone: Esteja calado e ajude-me.

(Sartre não se mexe. Continua a falar.)

Sartre: Enquanto escrevia cavava bem fundo em mim um buraco com comprimidos. Punha um pé em cada prato de uma balança e seguia em frente num jogo de equilibrista, consigo a meu lado.
Simone: Veja lá se consegue atar os sapatos, enquanto escovo o seu casaco.
Sartre: Que idade é esta agora?
Simone: Desculpe?
Sartre: Prometa-me que faz de mim papel, daquele cinzento, leve, que se deposita nos móveis, nos livros e nos meus óculos.
Simone: Sim. Já está. Vamos, vista o casaco.
Sartre: Limpa-me os óculos, por favor, Castor?
Simone: Já não precisa deles.
Sartre: Preciso de lhes sentir o peso.


CENA 47

Quarto de Sartre.

Sartre: Nunca tinha sentido tão nitidamente que penso com os olhos. Hoje tenho um horizonte estreito, sinto uma impossibilidade de fixar os pensamentos, porque me é impossível fixar um objecto, tenho a impressão de que há duas paredes escuras à minha direita e à minha esquerda e entre essas paredes um brilho de caleidoscópio. Como se os meus pensamentos fugissem antes de eu os poder agarrar. Não consigo endurecer os olhos, os meus pensamentos têm pouca nitidez. Vou deslizando suavemente para o fundo da água, direito ao medo.

CENA 48

Quarto de Sartre. Cama.

Simone: Olhe-me.
Sartre: Não. Quero olhar outra agora. Olhe-me você.
Simone: Então não olhe. Sinta-me.
Sartre: Não sinto os outros. Sinto-me.
Simone: Então deixe-me.

(silêncio)

Sartre: Olhe-me.
Simone: Se eu o olhar, você olha-me?
Sartre: Não. Não quero olhar ninguém agora.

(silêncio)

Simone: Olhe-me.
Sartre: Agora não consigo olhar ninguém.
Simone: Mas dê-me os seus olhos cegos.
Sartre: Dou.

(silêncio)

Simone: Os seus olhos mortos são meus?
Sartre: Se quiser.
Simone: Quer o meu corpo em troca?
Sartre: O seu corpo já é meu. Quer o meu também?
Simone: Quero.
Sartre: Mas eu não lho dou.
Simone: E o meu corpo, como o quer?
Sartre: Quero-o de olhos bem abertos.
Simone: Só?
Sartre: Só.


CENA 49

Quarto de Sartre.

Sartre: Já reservou o nosso hotel?
Simone: Sim. Outra vez o nosso terraço em Roma.
Sartre: Desta vez, veja se não se perde entre as ruínas.
Simone: E você, vai outra vez perder-se a olhar para as pessoas?
Sartre: As suas sombras…
Simone: Continuo a ler?
Sartre: Quando está só, ainda lê os meus livros?
Simone: Os nossos livros.
Sartre: Seja. Mas não me respondeu.
Simone: Não há livros. Há o mundo neles. E o mundo, afinal, vivi-o consigo.


CENA 50

Quarto de Simone.

Simone: Meu sempre querido Nelson, nem imaginas quantas vezes, nos últimos anos, adivinhei este momento. Quantas vezes estas palavras me arranharam o coração. E sempre as lágrimas vertidas se limparam com a recordação de tantos momentos de verdadeira felicidade. Até à minha morte, lembrar-me-ei daquele momento, quase há 20 anos, em que deixei cair as malas e senti o aperto dos teus braços.
Disse-te uma vez: a juventude e a alegria apenas as tive de ti. Acredites ou não, isso não se apaga. Nunca. Sempre tua, Simone.


CENA 51

Quarto de Sartre.

Sartre: Sonhei que estava deitado, a luz a bater-me forte na cara, ouvia passos e um rádio não-sintonizado como eu...
Simone: Não foi um sonho...
Sartre: Foi!
Simone: Está bem. E depois?
Sartre: Depois, seguia em frente e via um rumo traçado a vento, tão frágil como o pó, tão só quanto eu, tão meu quanto o mundo...

CENA 52

Quarto de Sartre.

Simone: Está melhor?
Sartre: Não sei.
Simone: Dormiu bem?
Sartre: Não sei.
Simone: Sente o frio?
Sartre: Não sei.
Simone: Quer que lhe leia?
Sartre: Não sei.
Simone: Está triste?
Sartre: Não sei.
Simone: A Arlette esteve cá hoje?
Sartre: Acho que sim.


CENA 53

Quarto de Sartre.

Sartre: Deixe-me, por favor, é tarde de mais para me converter a qualquer religião ― e muito menos para me confessar.
Simone: Desculpe, pensei apenas que queria falar… de Deus.
Sartre: De Deus?! Quer que lhe fale de Deus? Depois de tudo o que escrevi? Posso apenas repetir-lhe coisas que já sabe.
Simone: Sim, já sei, você não passa de uma pequena poeira surgida no mundo, mas um ser esperado, provocado, um ser que só poderia vir de um criador, um Deus…
Sartre: … eu sei que isso não é uma ideia clara. Contradiz coisas que pensei, não é? Mas a ideia persiste vaga.
Simone: Como algo do Deus em que você não acredita. Talvez uma moral.
Sartre: Apenas posso pensar na existência do Bem e do Mal. Um ateu radical pensa o Bem e o Mal como relativos, por exemplo, consoante o local da terra onde está.
Simone: Dostoievski escreveu: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.
Sartre: Percebo, mas… matar um homem é mau, absolutamente. Uma águia matar um leão, talvez não seja.
Simone: O homem cria noções de absoluto mas nunca deixa de relativizar, é verdade.
Sartre: O Bem é o que serve a liberdade. O Mal é o que nega a liberdade.
Simone: Uma moral baseada no homem e já não em Deus. Mas quando já não se acredita em Deus, uma mal feito contra o homem é absolutamente irreparável?
Sartre: Absolutamente. E de qualquer modo, o mal existe, profundo.
Simone: Disse-me uma vez que na sua juventude a sua vontade era sacrificar tudo à obra de arte. Uma espécie de bafo de crença em Deus?
Sartre: Sim, pensei que a obra de arte me parecia como a imortalidade de Deus, qualquer coisa que escapava aos homens e que devia ser lida pelo olhar de Deus. Eu criava uma obra e Deus olhava-a, para além de qualquer olhar humano. Foi isto que desapareceu em mim. Ou talvez não. A natureza da obra não é a natureza dos homens. Quando a obra de um escritor antigo, Voltaire, por exemplo, nos ilumina hoje, a sua luz está além do humano, como se outra consciência nos iluminasse. Ou seja, algo parecido com Deus.
Simone: Não o entristece pensar que está a fumar o último cigarro?
Sartre: Não. Para dizer a verdade, estes cigarros já me estão a enjoar.

CENA 54

Quarto de Sartre.

Simone: Em que pensa?
Sartre: Em nada. Não estou aqui.
Simone: Onde está?
Sartre: Em lado nenhum.


CENA 55

Lugar nenhum.

Sartre: Este sítio não me pertence. Não escrevi esta história. Esta não é a história da minha vida. Não gosto que me inventem.
Simone: Passou a vida a inventar-se. Agora é apenas mais um passo. O último. É preciso.
Sartre: Não me inventei. Inventei os outros em torno de mim. Desenhei vidas. Escrevi o mundo à minha maneira. E apenas deixei que você me escrevesse. Um pouco.
Simone: Não, não o escrevi, escrevi apenas o que você me ditou. E escrevi-me. Por si. Por mim. Contra si. Contra mim. Porque era preciso. Porque eu sabia que não poderia fugir a isso. Não me pergunte porquê. Apenas sabia que sabia.
Sartre: Que idade temos agora?
Simone: A do eterno recomeço de tudo.
Sartre: Fora deste sítio estranho, talvez. Aqui não quero viver. Vou sair. Você, se quiser, pode ficar.
Simone: Sabe muito bem que não pode. Não pode viver sem mim.
Sartre: Você é que não pode existir sem mim. (pausa.) E isto aqui não é viver. É fingir.
Simone: Então finja que saia. Aqui uma saída em falso não é mortal. E eu finjo que fico só.
Sartre: Se é assim que deseja... Onde fica a saída? Está tão escuro!


CENA 56

Quarto de hospital. Sartre está deitado. Quer respirar e não consegue.

Sartre: Agora sinto-me melhor. Acho que já respiro normalmente.
Simone: Durma. Agora durma.
Sartre: Tu também estás morta, pequena Arlette. Que efeito te fez seres incinerada? Enfim, eis-nos os dois mortos.


CENA 57

Quarto de Simone.

Simone: Os maoistas organizaram-lhe uma viagem a alguns centros industriais para estudar as condições de trabalho e de vida dos proletários, mas os médicos proíbem-no. Detectaram-lhe sérias perturbações circulatórias na região esquerda do cérebro, a região da linguagem, e um estreitamento dos vasos sanguíneos. Mas apesar dos seus problemas de saúde, Sartre persiste nas suas actividades políticas: falar com os operários, fundar e dirigir jornais e revistas da esquerda radical, intervir em todo o lado e sempre que a saúde lho permite. Às vezes, imagino que ele gostaria de acabar os seus dias a discursar para operários empoleirado no cimo de um barril – como uma vez fez em Billancourt; de outras vezes, imagino-o a deixar-se simplesmente afundar pela vida abaixo até à morte... Cada um inventa as imagens de que gosta.

CENA 58

Quarto de hospital.

Sartre: Sonhei que me queriam executar!
Simone: Quem?
Sartre: Os meus colegas da escola. Obrigavam-me a entrar no relógio do campanário, faziam um buraco no local do meio-dia, à medida da minha cabeça, depois esperavam pelas doze badalada e... zás!
Simone: Era uma espécie de bobo da corte.
Sartre: Na escola?
Simone: No seu sonho.
Sartre: Mas no liceu metiam-se muito comigo.
Simone: E você? Ripostava?
Sartre: Às vezes. Mas no liceu batem-nos como a um camarada, sabe. É com amizade que nos batem.
Simone: Ensinaram-lhe a violência?
Sartre: É possível. Viviam-se tempos de guerra.
Simone: Mas você era violento?
Sartre: A violência é uma coisa que se impõe em todas as relações. Um pouco como a compreensão.



CENA 59

Quarto de hospital.

Sartre: Já estou morto?
Simone: Não. Não está.
Sartre: Sim, já estou morto.
Simone: Ainda não.
Sartre: Então, traga-me um whisky.


CENA 60

Quarto de Sartre.

Sartre: A vida política representou uma coisa que não pude evitar, na qual estive mergulhado. Não fui um homem político, mas tive reacções políticas a uma série de acontecimentos políticos; de maneira que a condição de homem político, no sentido lato, ou seja, no sentido de um homem tocado pela política, penetrado de política, é uma coisa que não me caracteriza. Quando me empenhei de uma maneira ou de outra na política e fiz uma acção, nunca abandonei a ideia de liberdade; pelo contrário, cada vez que agia sentia-me livre. Nunca pertenci a um partido. Encontrei-me em ligação com grupos, sem lhes pertencer. Pediam-me actos; eu era livre de responder sim ou não e sentia-me sempre livre aceitando ou recusando. Eu sabia que a política também se escrevia; ela não se realizava simplesmente por eleições ou guerras, escrevia-se. Foi o que fiz toda a minha vida.


CENA 61

Quarto de hospital.

Sartre: Escreva a nossa história, meu amor, a verdadeira história de dois amantes livres.
Simone: E heróis… Já temos idade…
Sartre: Tenho todas as idades, tudo existe em mim, eu existo em tudo... Não há idade à qual eu não possa pertencer
Simone: Aqui, no hospital? Doente, velho...
Sartre: E você?
Simone: Vivo fora dele.
Sartre: Está a dizer que vive fora de mim?
Simone: Tento…
Sartre: Mas não consegue, porque eu sou em si. Eu sou a prisão da sua liberdade, não é assim, Castorzinho? Eu estou omnipresente no seu universo de asas, diga lá que não é verdade! Diga que sim, diga que sim, diga que sim, diga que sim...
Simone: Durma. Vou-me embora, volto amanhã.


Sartre: Eu sei que ela me ama.

Simone: Eu sei que ele me ama.


CENA 62

Quarto de hospital. Sartre adormecido.

Simone: Ele sabe que vai morrer, assim, sem emoção. Por vezes creio que ainda tem uma esperança de cura, de vida... Procuro manter-me lúcida. Tenho medo. Assusta-me sabê-lo morto e não conseguir ver para além disso. Não paro de lhe procurar a respiração, quero o poder de o acordar.


CENA 63

Quarto de hospital.

Simone: Está a sentir-se bem?
Sartre: Acho que dormi. Foi boa a viagem.
Simone: Que viagem?
Sartre: Não se lembra?! Sítios bem curiosos e agradáveis, sim senhor. Foi simpático o médico que nos emprestou o carro. Não me lembro é do nome dele...
Simone: Não terá sonhado?
Sartre: Não! Claro que não!
Simone: Tente repousar. A febre tem que baixar.

(Simone beija-o.)

Sartre: Não sei se está a beijar um bocado de túmulo ou um homem vivo.


CENA 64

Corredor de hospital.

Sylvie: Como está ele?
Simone: Frágil. Muito frágil. As artérias mal fazem o seu trabalho. Voltou ao serviço de reanimação. Tem que ser vigiado 24 horas por dia.


CENA 65

Quarto de Sartre.

Sartre: Não pode existir hierarquia face à liberdade. Não há nada acima dela, portanto eu decido sozinho, ninguém pode forçar as minhas decisões. Mantenho a ideia de que a liberdade consiste também em poder morrer. Quer dizer que, se amanhã uma ameaça qualquer pesar sobre a minha liberdade, a morte é uma maneira de a salvar. Desde a infância que me sinto livre. Morrerei como sempre vivi, com um sentimento de profunda liberdade.


CENA 66

Quarto de hospital.

Sylvie: Dormiu bem?
Sartre: Não se está bem aqui. Felizmente que vamos partir em breve. Agrada-me a ideia de partir para uma pequena ilha.


CENA 67

Corredor de hospital.

Simone: Começou a ter escarros. Grandes placas violáceas e avermelhadas. Gangrena. A bexiga funciona mal. Os rins não são irrigados. Uremia. O sangue recusa-se chegar-lhe ao cérebro.
É preciso que ele não se veja morrer. Que não tenha angústia. Que não sofra.

CENA 68

Quarto de hospital.

Sartre: Dê-me um copo de água. A próxima vez que bebermos juntos será em minha casa e com whisky. (pausa) Como vai ser para as despesas do enterro?
Simone: Não fale nisso agora.
Sartre: Amo-a muito, meu Castorzinho. (pausa) É dia?
Simone: É noite.
Sartre: O que vai acontecer ao meu cérebro?


CENA 69

Quarto de hospital.

Sartre: Não quero aborrecer os outros com os meus aborrecimentos. É assim e nada posso fazer. Não tenho razão para me sentir desolado. Fez-se o que se tinha a fazer.


CENA 70

Lugar nenhum.

Simone: Quis ainda deitar-me com ele. A gangrena farejou-me por dentro, sangrei por dentro, não fazia mal nenhum. O seu corpo era morto junto ao meu mas foi bom sabê-lo assim, porque assim tive-o também morto. E tive ainda dores dentro a escorrer para fora em água quente junto aos olhos até dormir.
Dormir agora não sei bem se é dormir como antes. Dormir antes era um espaço preto em movimento até cansar e depois não saber. Dormir agora é um corpo muito inchado com carne à mostra a chorar devagar sobre o meu que é vivo.
(Não o sinto vivo mas sei que é vivo).
Hoje não acredito que isto aconteceu assim, entornei todas as verdades no chão. Agora, quero-me sempre assim-assim. Não basta, eu sei que não, mas sabe tão bem enganar a cabeça para que ela não sofra. Além disso eu faço que ele exista pelas palavras: é bom juntá-las para ler depois, como num jogo, memórias em quebra-cabeças penduradas nos papéis que são meus.
Eu sei que não o voltarei a ter todo. E a minha morte que virá já não poderá voltar a unir-nos. Mas tenho retalhos rotos que visto e que me servem, e às vezes até tiram algum frio que possa ter.
É belo que tenha sido assim.



CENA 71

Lugar nenhum.

Menino A: Queres lutar?
Menino B: Vou ser herói!
Menino A: Na guerra?
Menino B: Melhor que Deus!
Menino A: Quem és tu?!
Menino B: E nunca morro!



CENA 72

Lugar nenhum.

Menina A: Gostas das minhas tranças?
Menina B: Vou viajar.
Menina A: Gosto de baloiços.
Menina B: Vou ser rainha!
Menina A: De bolo de chocolate.
Menina B: E ter um Rei só para mim!


[cam]

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